domingo, 29 de janeiro de 2012

ODE AO AMOR


Ode ao Amor





(1)
Canto-te, imenso Amor, na pérola-céu
     Reluzente e esculpida do barro,
Qual douta ave de amarelo-véu
     Cores derrama de um belo jarro.
Desperto. Ninho-envolvido à colmeia  
     Donde és-me recanto de pazes:          
          Sonhares & danças ao Sol,
                Raios-rubis dons-de-deia,
          & minha voz turvo-mel – rouxinol –    
     Refrescam o solo em que jazes.


(2)
Nada direi para do amor dizer!
     Quero-o, até à morte, profundo,
Ao meu, fundindo, o teu Ser,      
    Tornando “não” em “sim”, no mundo.
Se for teu mundo é também meu.    
     Vês à queima paisagens fogo-luz?
          Bailam folhas-de-ar em melodias.                
               Saibas, guardo tanto de ti, outro-eu.
          Meu avesso é isto que profecias?
     Dúvida que molda minha cruz.


(3)
Ouço-o da relva, se Amor não digo.
     Em regras, breve corpo, inexiste.
Desce das estrelas, amigo antigo,    
     & do suave lacrimar consiste.
Deserta-me o lírio-almíscar, quente; 
     Êxtase oloroso me silencia e viola.                 
          Vozes à Poesia clamam – nua, adentre!
               & de um som tremulando, longamente,
          Transcria-me qual ave plúmeo-sonora.
     No parto, jorra o Sol de teu ventre.


(4)
Atinges – por que razão?  colinas de corpos,
     Emanando demoníacas máscaras de tristeza
& louvas deidades, Amor, com buquês de lótus,

     Cá na terra, fendes abismos-de-beleza.
Divos e mortais, porém, da nebulosa Paixão
     Tua quietude ao esquecimento distrai
          & à solitude os seduz, no pranto do gozo;
               Durmo & de mim a melancolia se esvai.
          Não fosses a razão deste escrever animoso,
      Doaria à Moira, em vigor, este coração.


(5)
Dizer-te do Amor, a sós, com a Poesia;
     Mas o Outro é limite: selvagens umbrais.
Estar junto é estar sem poemas, filosofia,
     Em que outra estação serviriam, estivais?
 Minh’alma é selva inóspita e inteira  
     - O que serve às palavras senão a distância?
          É por isso que existe nas letras dor.
               - Lágrimas, dádivas de grandeza passageira,
          Caem-me como flores em abundância.
     À Poesia: ausência. E à distância, o amor.

Nenhum comentário: