Ode ao Amor
Canto-te, imenso Amor, na pérola-céu
Reluzente e esculpida do barro,
Qual douta ave de amarelo-véu
Qual douta ave de amarelo-véu
Cores derrama de um belo jarro.
Desperto. Ninho-envolvido à colmeia
Donde és-me recanto de pazes:
Sonhares & danças ao Sol,
Raios-rubis dons-de-deia,
& minha voz turvo-mel – rouxinol –
Refrescam o solo em que jazes.
(2)
(2)
Nada direi para do amor dizer!
Quero-o, até à morte, profundo,
Ao meu, fundindo, o teu Ser,
Ao meu, fundindo, o teu Ser,
Tornando “não” em “sim”, no mundo.
Se for teu mundo é também meu.
Se for teu mundo é também meu.
Vês à queima paisagens fogo-luz?
Bailam folhas-de-ar em melodias.
Saibas, guardo tanto de ti, outro-eu.
Meu avesso é isto que profecias?
Dúvida que molda minha cruz.
(3)
(3)
Ouço-o da relva, se Amor não digo.
Em regras, breve corpo, inexiste.
Desce das estrelas, amigo antigo,
& do suave lacrimar consiste.
Deserta-me o lírio-almíscar, quente;
Êxtase oloroso me silencia e viola.
Vozes à Poesia clamam – nua, adentre!
& de um som tremulando, longamente,
Transcria-me qual ave plúmeo-sonora.
No parto, jorra o Sol de teu ventre.
(4)
(4)
Atinges – por que razão? – colinas de corpos,
Emanando demoníacas máscaras de tristeza
& louvas deidades, Amor, com buquês de lótus,
Cá na terra, fendes abismos-de-beleza.
& louvas deidades, Amor, com buquês de lótus,
Cá na terra, fendes abismos-de-beleza.
Divos e mortais, porém, da nebulosa Paixão
Tua quietude ao esquecimento distrai
& à solitude os seduz, no pranto do gozo;
Durmo & de mim a melancolia se esvai.
Não fosses a razão deste escrever animoso,
Não fosses a razão deste escrever animoso,
Doaria à Moira, em vigor, este coração.
(5)
(5)
Dizer-te do Amor, a sós, com a Poesia;
Mas o Outro é limite: selvagens umbrais.
Estar junto é estar sem poemas, filosofia,
Em que outra estação serviriam, estivais?
Minh’alma é selva inóspita e inteira
- O que serve às palavras senão a distância?
É por isso que existe nas letras dor.
- Lágrimas, dádivas de grandeza passageira,
Caem-me como flores em abundância.
À Poesia: ausência. E à distância, o amor.


